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Turbilhão de emoções. Fragmentos soltos
 
Turbilhão de emoções. Fragmentos soltos
 

Chegados finalmente a Luanda. Aeroporto Internacional. Somos imediatamente confrontados com os esquemas de sobrevivência que os empregados do aeroporto têm preparado. Uma mala puxada para um recanto, um viajante que se afasta do grupo principal e o funcionário que se dirige a ele e lhe exige gasosa para que não haja problemas. Tudo se resolve. Não vai haver problemas.
Á nossa espera o representante da E&O, Sr. Guido Campos. Pontualíssimo. Simpático e inexcedível em dedicação. Formalidades a tratar para poder filmar em Angola. Conhecemos a sede da ADRA e o Dr. Sérgio, também ele de uma grande amigabilidade. Ouvir e entender nas suas palavras o enorme projecto da ADRA em Angola. Vastíssimo. Milhares de famílias angolanas a beneficiar deste apoio enorme e independente. Um projecto que nos parece de grande solidez. Pragmático. Visionário.

Logo na primeira noite um pequeno sonho do João concretizado. Fotografar a baía de Luanda. Á noite. Toda iluminada. Da ilha. Local escolhido em obras. Hotel Panorama. O local desejado. O local ideal para fotografar. Noite já bem dentro, lá conseguiu entrar e fazer umas imagens belíssimas. Dorme feliz com o feito. Dorme pouco. Quatro da manhã estamos a pé. Um motorista vem-nos buscar à Residencial Capital para nos levar para um ponto da cidade onde nos apanhariam 5 da manhã. Fulano duro. Sorriso fechado e de pouca conversa, vai-se abrindo á medida que o tempo passa. E passa muito. Descobrimos um conversador. As horas a passar, o motorista que nos levaria a Malange a não aparecer e o nosso amigo de olhar taciturno a revelar-se. Aula completíssima sobre a guerra colonial. Antigo combatente por Portugal vai-nos colorindo o tempo que avança sem trégua alguma. Cinco da manhã, seis da manha, sete, oito,... O motorista que não vem. Ter-se-á deitado muito tarde ao que sabemos. O olhar taciturno que volta de novo. A necessidade de haver responsabilidade, de respeitar os compromissos a ser repetida centenas de vezes... Os primeiros carros a aparecer, a cidade deserta das 4 da manhã a tornar-se paulatinamente caótica. A sensação de entrarmos num formigueiro. Lá nos deixa na sede da ADRA. O motorista não pode aparecer mesmo. Teremos de esperar por outro. A fome dá sinal e lá corremos a pé vários quarteirões á procura de um local onde pudéssemos tomar um café. Comer qualquer coisa. Mas é tão difícil. A agulha do palheiro seria uma brincadeira. Não adianta perguntar que ninguém sabe. Até que uma miúda depois de dizer que não sabe, lembra-se de algo, ilumina-se-lhe o rosto e aponta numa direcção. Três quarteirões à frente acabámos a tomar o melhor café duplo com croissants que já nem em sonhos poderíamos imaginar.

Partida para Malange às 13 horas. Um motorista de nome Dadinho e sorriso a condizer leva-nos por Luanda fora. Um trânsito alucinante. Sem palavras para descrever. Três horas para sair da cidade. Num para arranca mais regular que um relógio suíço. Colorido. Vende-se de tudo na berma da estrada. Caju, bebidas, óculos de sol, canas de pesca, catanas, ferros de engomar... Tudo bem melhor que ver TV. Vamos bem distraídos e quando finalmente começamos a andar bem, um pneu rebenta. Ainda com mais de trezentos quilómetros pela frente tem de ser reparado. Não dá para arriscar. Há que evitar dormir na Sanzala. Paramos numa recauchutagem familiar á beira da estrada. Dezenas de miúdos aprecem à nossa volta. São tão engraçados e alegres. Fazemos as primeiras filmagens enquanto esperamos. A simpatia do povo comove-nos. Uma hora depois a constatação que a câmara-de-ar não tem reparação. Há que ir comprar uma a outra aldeia próxima. Foi colocada mas era pequena. Comprar outra. Também pequena. Vai ter de dar assim. É colocada. É enchida. Está furada...Grande atraso na viagem. Mas tão bem passado. Tanta alegria. Tanta simplicidade. E a língua portuguesa na boca da mais pequena das crianças, do mais velho dos idosos. Sentíamo-nos em casa. Bem tinha razão o Pessoa. Lá arrancamos até Malange. Agora de vez. A Casa do Gaiato como destino. Uma entrada imensa. Dois guardas armados de vigia. Primeiro encontro com o Adão. Adão dos patos. Que são três e dos patos é para distinguir. Já tratou deles e a alcunha ficou. Alegria transbordante.


Malange, 15 Setembro 2009
José António Passos (Zé Tó)

 
2009-09-15
 
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