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Um dia na Casa do Gaiato de Malange - O Adão dos patos
 
Um dia na Casa do Gaiato de Malange - O Adão dos patos
 

Parte 1. O Adão dos patos


Dizia eu, que chegados a Malange, embatemos de frente com a alegria em pessoa. Nunca vi tanta vitalidade, sentido de humor, imaginação e sonoridade concentradas numa só pessoa. É assim o Adão dos patos. Está ali concentrada toda a alegria, ritmo, sensibilidade e musicalidade do povo africano.
Leva-nos Casa do Gaiato adentro ate á casa principal onde nos apresenta a tia Montse e o tio Bartolomeu. Um casal de espanhóis que já correu mundo em regime de voluntariado. Muito simpática a tia, serve-nos o jantar que tinha sido feito pelos miúdos. Parece que à noite são sempre eles que cozinham. Arroz com carne de vaca. Um pitéu para mais aquela hora e depois de uma viagem tão longa movidos apenas a caju. Entra o padre Eduardo que nos é também apresentado e com grande sentido de humor, logo nos diz que pelos vistos hoje não vai poder jantar. Estávamos a dar-lhe cabo do resto do tacho... esta neste registo humorístico uma boa meia hora enquanto ao seu lado o dos patos vai contando mil historias num frenesim indescritível. Uma dinâmica tremenda naquela sala onde o padre Américo observa com um sorriso numa foto pendurada. Um entra e sai constante de miúdos de todas as idades. Educadamente batem a porta e aparecem com tantas histórias e pedidos. A tia desdobra-se como pode enquanto o padre Eduardo e o tio Bartolomeu ripostam com um humor cirúrgico todas as solicitações da criançada. Sempre com o som do Adão de fundo. Isto promete. Às tantas entra um rapaz alto, de olhar para baixo e de uma educação extrema. É apresentado como o líder, o chefe, o responsável. Foi eleito para este ano pelos cento e tais gaiatos da casa. Dá para perceber porque.
Toda a organização das tarefas da casa passa por ele. Depois delega hierarquicamente por outros miúdos. Entra também o padre Rafael que esta a chegar de Malange. Na ausência do padre Telmo em Portugal é ele o responsável pela casa do Gaiato. Simpatizei logo muito com ele. Dificilmente se pode ver tanta bondade e delicadeza na cara de uma pessoa. Também dono de um grande sentido de humor, acutilante, junta-se ao fartote. Tem uma gargalhada demolidora. O dos patos crava-lhe logo o telemóvel, que tem de fazer umas chamadas. Este Adão é muito sociável dizem todos. Sempre com muitas chamadas para fazer. Muita namorada na cidade. Com um grande sorriso o padre Rafael, tira-o do bolso, entrega-lho na mão e continua a falar connosco. Mal o dos patos sai da porta entusiasmado para telefonar, o padre Rafael acrescenta: em um minuto está aqui de novo. E sorri. Emprestou-lhe o telemóvel sem saldo. Tem de ser assim. Não dá para simplesmente lhe dizer que não tem saldo ou que não empresta. Os miúdos assim entendem melhor… E lá bate á porta ao segundo sessenta. Foi o tempo de ir apanhar rede junto á linha de comboio desactivada...como o telemóvel. Duas das muitas pessoas a bater a porta são os guardas contratados para tomar conta da casa. Com as suas Kalashnikov AK47 metem algum receio. Principalmente um deles de olhar ensanguentado e vago. Assustador. Quando saiem da sala, sorrimos todos daquele ar inquietante e perturbador. O padre Rafael diz-nos que o guarda é catequista! E dá uma grande gargalhada. Se fosse miúdo palpita-me que ia dar umas faltitas à catequese... Acabados de jantar e de instalar as coisas na enfermaria onde iríamos dormir vamos conhecer esse local com rede. O único da casa. Ou melhor, fora da casa. De uma escuridão total, temos de subir e descer umas enormes valas de terra carregadas de grandes lagartos. Mete medo. Nem acreditávamos que estávamos sentados num local assim. Vale-nos o Adão que não se cala e nos distrai e diverte com tanto filme. Se este dos patos não se agarrar aos estudos e seguir uma carreira na área das relações públicas é uma perca muito grande. Lá fazemos umas chamadas e enviamos uns SMS enquanto nos interrogamos como é que só ali, naquela escuridão tremenda, mesmo em cima da linha do comboio temos um pouco de rede. Um dia a linha vai ser reactivada e não gostávamos nada de sermos nós a descobrir. Fomos para dentro e às 22 horas em ponto desligam o gerador. É sempre assim a esta hora, dizem. Tudo às escuras para dormir. Ainda tivemos algum tempo para pôr os equipamentos a carregar. O profissionalismo do João continua a surpreender-me. Tem tudo tão bem organizado. Enquanto eu monto o meu mosquiteiro - não vão as fêmeas mosquito presentearem-me com a malária - faz backups do material recolhido durante o dia.
Eu lá adormeço bem cansado enquanto ele lá continua em volta da tecnologia. Melhor companheiro de viagem não podia ter arranjado. Amigo, simpático, em completa sintonia comigo e com o projecto, incansável, disponível para comer qualquer coisa e dormir em qualquer lugar, com um enorme prazer em estar aqui e conviver com estes miúdos e … organizado! Pelo menos no essencial, no que não poderia falhar, na tecnologia, nos backups, nas baterias. Agora toalha de banho, shampoo e pasta dos dentes foi-se lá lembrar…

Luanda, 19 Setembro 2009
José António Passos (Zé Tó)

 
2009-09-19
 
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