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Um dia na Casa do Gaiato de Malange - Uma grande família
 
Um dia na Casa do Gaiato de Malange - Uma grande família
 

Parte 2. Uma grande família

Acordamos cedo, talvez sete. Abrimos as janelas e já dezenas de miúdos pequeninos, os caçulas, varrem os canteiros em frente com vassouras de ramos. Fazem fila uns atrás dos outros e passam à vez pelos mesmos locais enquanto um mais velho os observa e corrige. Nem uma folha minúscula escapa a este pequeno tsunami. Outros miúdos mais velhos aparecem com equipamentos de futebol que eles próprios tinham acabado de lavar. Vão ter jogo a sério a meio da manha e estendem os calções e camisolas ao sol a secar em cima da relva. Outros mais velhos ainda, cortam as sebes enquanto tagarelam alegremente. Tanta miudagem a trabalhar e tão alegre. Lá tomamos uma banhoca bem gelada e vamos ter á salinha da véspera onde nos aguarda o pequeno-almoço. Pão com doce de ameixa, arroz-doce, e um café divinal. Nem queria acreditar naquele cheirinho a cafeína tão saboroso. Uma delícia. Diz-me a tia que é cultivado por eles, e torrado pelo cozinheiro. Que é um grande mestre a torrá-lo numa enorme frigideira. Tarefa muito difícil e que exige muita mão e muito ano. O padre Rafael logo acrescenta a brincar que este café foi a razão principal para ficar a viver aqui. Acho que aviei umas boas três chávenas enquanto o João se empanturrava no arroz-doce. Damos uma volta grande pela casa e filmamos as primeiras imagens. No enorme campo de terra batida os mais velhos jogam uma grande futebolada. Uma equipa de rapazes de Malange como adversário. Muita técnica e grandes momentos de futebol. Fases do jogo também muito caóticas. Futebol africano na sua essência.
Conversamos de seguida com o padre Rafael sobre o que queríamos filmar durante o dia e ele passa-nos as chaves da carrinha. Ainda tem tempo de se aproximar do velho com mais de 100 anos que dormia com o seu quase tão velho chapéu do MPLA e gritar-lhe bem no ouvido: UNITA, UNITA... Aqueles 100 anos transformam-se em 15 e o velho em felino tal o salto que da... E sorri. Sorriem os dois. Sorrimos todos. Arrancamos para a lagoa grande com um dos gémeos, o Jacinto como guia. Alguns metros à frente e a caixa aberta da carrinha esta á pinha. Quer tudo ir dar um mergulho na maior das lagoas da casa, enorme. Momentos muito agradáveis de convívio e conversa com os miúdos. As primeiras impressões. Damos depois a volta e vimos pela lagoa pequena. É ainda mais bonita. Paramos para filmar e fotografar. Mais á frente uma senhora dá banho a cinco filhos numa bacia pequena. Recebe-nos com um grande sorriso e um olá tão bem soletrado em português. Mexe connosco e faz-nos pensar. Uma conversa assim tão natural num sítio tão longínquo e improvável. Brincamos com os miúdos e com a maior naturalidade do mundo a senhora levanta-se, pega na bacia e vai atrás de um arbusto pequeno tomar a grande banhoca. Tinha chegado a vez dela. Seguimos para a casa onde um sino anuncia que o almoço será servido. Almoçamos na salinha do costume. Conversa animadíssima e planeamento do resto do dia. A seguir ao magnífico café, entrevistas com os miúdos. Local sossegado e um bom enquadramento. Começamos pelos gémeos. O Jacinto e o Orlando. Dois miúdos de doze anos, muito responsáveis e ao que nos disseram já tinham passado muito. Expectativas, o que gostavam de ser um dia, de estudar, disciplinas favoritas, dificuldades e claro, uma mensagem para o padre Telmo. O pai de todos. Como eles dizem, pai, mãe, avô, amigo. Todos adoram o padre Telmo. Não fiquei surpreso. Já o sabia. Só podia ser assim. Nos seus 85 anos o padre Telmo e tudo para eles. Mas está em Portugal e eles estão cheios de saudades. Um a um vão se sentando e as conversas correm lindamente. Engenheiros de minas, dos petróleos, médicos, jornalistas e claro futebolistas. Tinha de ser. Cá como lá. Os miúdos são iguais em todo o lado. Eis que surge um rapazola dos seus 17, 18 anos de enormes olhos muito rasgados e espírito muito vivo. Também gostava muito de ser entrevistado. Claro que podia. Sentamo-lo, e colocamos-lhe o microfone. Está muito tenso. Respira fundo. Olhar concentrado no infinito. Apresenta-se, e diz com extraordinária dicção: “Gostava de ser filosofo! Epistemologicamente o filosofo sempre foi....a importância da filosofia para o cidadão..” , está nisto longos 5 minutos sem parar. Brutal. Fiquei tão embasbacado que não prestei atenção ao conteúdo do discurso. Senti que estava a assistir a algo muito especial. Um filosofo aqui na Casa do gaiato? Na África profunda? O pensador, um dos símbolos de Angola estaria ali a nossa frente? Estou curioso para ouvir as gravações e analisar se tudo aquilo que disse faz sentido. Cinco minutos seguidos de frases extremamente bem elaboradas com as palavras menos usuais e mais complexas teriam algum conteúdo? Acredito que sim, ou melhor, quero acreditar que sim, embora o Joao que já terá ouvido a gravação, me tenha dito que não haverá grande diferença para um disco riscado…Vamos ver. No fim da tarde nova ida à Lagoa grande com o padre Rafael e a carrinha cheiinha como um ovo de duas gemas. A maneira como o padre lida com os miúdos é notável e inspiradora. Fala com eles, ri-se, brinca, pica-os, motiva-os. Sempre com um sentido de humor ilimitado e a gargalhada a condizer. Grande fim de tarde. Ainda temos tempo de ir ver o enorme pomar ao fundo da casa. Enormes Mangueiras estão já bem carregadas. E pena ainda não ser altura delas. Lá nos mostram as favoritas do padre Telmo. As últimas três. Dão mangas mais pequeninas em forma de pêra e muito doces. Sempre que chega de Portugal vem aqui consolar-se.

Voltámos e preparamo-nos para a missa. Mas que missa. Que grande momento. Mais um. Nunca assisti a cerimónia assim. Capela da casa cheia. Gaiatos de todas as idades. O padre Rafael fala com os miúdos. Com uma forma tão suave e ao mesmo tempo incisiva. Pergunta-lhes coisas, troca ideias, põe-nos a pensar. E uma missa interactiva, dinâmica, recheada de questões elementares. Quem sou eu? Quem és tu? E está nisto uma boa meia hora. A qualquer um deles pode sair uma pergunta pela boca do padre que vai percorrendo todo o espaço da capela. Orlando, quem és tu? Que ninguém se distraia. Um dos momentos mais bonitos foi o da saudação. Toda a gente a cumprimentar toda a gente. Ao som do grupo musical com batuques liderado pelo incrível Yanick, o filósofo. Novamente brutal. Momento que nunca mais vou esquecer. Tanta energia no ar. Toda a miudagem a movimentar-se. O padre, o tio e a tia, nós os dois. Toda a gente a olhar-se nos olhos e a dar apertos de mão ao som da batucagem. Quase no final um grupo de rapazes sai da capela por breves instantes e volta a entrar a dançar ao som dos batuques. Dança africana. Percorrem toda a capela enquanto toda a gente canta. Tão diferente e bonito. Claro que gostei muito da missa. O João também. Estávamos rendidos a esta instituição, a estes miúdos e ao padre Rafael. Que ainda nos disse ao jantar, que os miúdos só fazem esta dança em momentos muito excepcionais. Para honrar a presença de alguém. Que mais dizer? Assim partimos para o refeitório alguma meia hora depois. Ao som dos sinos. Cheiinho de mesas redondas começa a encher-se. O barulho normal num refeitório de crianças e adolescentes. As mesas já carregadinhas de esparguete, e feijão com carne e muitas, muitas saladas de tomate. Ninguém toca na comida. De repente um dos miúdos levanta-se e com ele toda a miudagem. Sem excepções. Silêncio sepulcral. Faz uma breve oração, agradece a comida e senta-se de seguida. A sonoridade volta ao normal. Ao jantar o padre Rafael, Eduardo, tio Bartolomeu e tia Montse jantam sempre com os miúdos. Como são eles a cozinhar será uma maneira de controlar as coisas. Ao almoço o cozinheiro contratado ajuda a manter a ordem. No final do jantar novamente silencio e nova pequeníssima oração. Passamos de seguida para a salinha do costume. Para o chazinho de menta com bolachas a acompanhar uma conversa maravilhosa que me vai deixar muitas saudades. Enquanto a tia Montse prepara o chá, uns miúdos brincam mesmo no pátio ao lado. Jogam futebol com uma bola tipo meia de trapos. Aquilo começa a mexer comigo. Toda a vida gostei de jogar uma boa futebolada. Joguei tantas. Em tanto lado. Com mais velhos, mais novos, miúdos, graúdos, alunos, jogadores a serio, craques, todo o tipo de pessoas. Em tudo o que é praia, picnic, escola, descampado ou estrada velha. Onde calhasse. Haja bola e alguns metros quadrados. Não resisto. Vê-la pela janela, ali tão perto de pé para pé foi muito forte. Em segundos o chá da tia Monge que esperasse. Duas novas equipas formadas e a bola de meias velhas enroladas com forma de um melão pequeno rolava de novo. Eu e o João disputávamos a futebolada do século em pleno Maracanã. A alegria e intensidade eram tantas que não dava para minimizar esforços. Completamente encharcados em suor continuávamos a disputar a final da liga dos campeões. A partida das nossas vidas. Miúdos com uma técnica mirabolante, guarda-redes quais felinos a fazer defesas impossíveis, a voarem e a aterrarem suavemente no cimento. Grandes golos para ambos os lados, um resultado impossível de 8 a 7 como tinha de ser, grandes finalizações do João e umas fotos finais a sinalizar o momento. De seguida o chazinho, a conversa de fim dia, o humor transbordante de todos, a dinâmica daquela sala onde todos vêm ter ao anoitecer. Como uma grande família.


Luanda, 19 Setembro 2009
José António Passos (Zé Tó)

 
2009-09-19
 
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