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Kalandula
 
Kalandula
 

“…Imagens que passais pela retina /Dos meus olhos, porque não vos fixais? /Que passais como a água cristalina /Por uma fonte para nunca mais!... /Ou para o lago escuro onde termina /Vosso curso, silente de juncais, /E o vago medo angustioso domina, /_ Porque ides sem mim, não me levais?/..”
Camilo Pessanha in Clepsydra


Ao longe, bem lá no cimo das montanhas, avistamos Kalandula. A paisagem é deslumbrante. De um lado em sucessivas camadas de ocres, a terra por mim tão imaginada. Do outro, o possante rio Lucala. Os furos de balas nos enormes imbondeiros assinalam-nos o caminho. Esses mesmos furos que testemunham e relembram todos os dias ao povo angolano a sangrenta guerra que o avassalou, e que por todo o lado o vai mantendo numa letargia hipnótica, aparentemente tranquilo e feliz pela paz há tanto esperada. No entanto as dificuldades sociais e económicas inimagináveis e inconcebíveis num país tão exageradamente rico, são a grande realidade. Mais dia menos dia, mais cedo ou mais tarde, os buracos vão-se tapar, as feridas sarar, o entusiasmo diluir e a tranquilidade quimérica terminar. Os angolanos começarão a exigir as condições de vida a que tão legitimamente têm direito.

Ainda tempo de deixar a miúda chocolate que parte sorridente embebida em enormes sonhos de prometidas viagens. Nos próximos dias o seu pensamento, qual ave africana, voará como nunca na companhia do seu novo príncipe António.

Fazemos a última subida e entramos directamente na rua central. Percebemos logo porquê. Uma agencia bancária toda moderna deixa-nos estupefactos. Mais à frente uma bomba de gasolina em remodelação e vários edifícios. Casas de habitação, lojas que me fazem lembrar as antigas “vendas” existentes em Portugal e que têm as prateleiras carregadas de bolachas e pequenas garrafas de Whisky indiano a 50 kwanzas – grande ajuda ao estado de modorra da nação - , pequenos armazéns, uma escola, um hotelzinho, a administração local, uma igreja e muitas mulheres que caminham com um passo escorado, firme e decidido. Compõem em todo o lado o tecido visual, carregadas até ao inimaginável, com um ou dois filhos às costas e um enorme cesto na cabeça, cheio de fruta ou vegetais. Chegam a fazer vinte ou trinta kilómetros por dia com esse carregamento. São um símbolo de África. Trabalhadoras sem igual, cuidam dos filhos, do marido, dos pais, da agricultura, da cozinha, do sustento da família, da casa, dos animais, de tudo. Mesmo de tudo. Admiro-as muito. São quem faz tudo funcionar. O verdadeiro coração de África.

O guia António leva-nos directamente a casa do Administrador Dr. Joaquim Pedro. Muito afável e disponível causa-nos também uma excelente impressão. Mais um. Não fico admirado. Já tinha indicações do nosso presidente, seu amigo de longa data, do tipo de pessoa que iria encontrar. Em menos de nada estamos a tomar novo mata-bicho no hotelzinho da rua principal. Único na terra e explorado por um casal de portugueses apresenta-se como um espaço acolhedor. Uma enorme Palanca negra ornamenta o jardim em conjunto com um magnífico fontanário representando a fertilidade, em que duas mãos seguram duas cabaças que vertem água para uma enorme malga. Mais dois símbolos de Angola. Terminada a refeição e uma conversa sobre o nosso plano de filmagens, seguimos para a igreja local. È domingo dia de missa e estamos muito interessados em capturar algumas imagens da cerimónia e obviamente recolher toda a sonoridade daqueles cânticos que prometem ser incomparáveis. Entramos e a distribuição das pessoas na igreja chamou-me logo a atenção. Homens à esquerda e mulheres à direita desequilibram completamente a distribuição cromática num espaço repleto. Os cânticos começam e uma verdadeira explosão de cor e sonoridades acontece. Todos os sons de África e tonalidades, acolhem em força á chamada…

Saímos da igreja mal as vozes abençoadas descansaram. De alma cheia. Mas tinha de ser. O dia ia avançando e as quedas de água esperavam. Impacientes. Meia hora de picadas e chegamos a um magnífico convento isolado. O nosso guia lá nos conta que no tempo da guerra entraram por ali dentro homens armados e levaram um padre completamente nu para o matar na sanzala. Levaram-no mas acabaram por solta-lo mais tarde. Deu-lhes o respeito, a decência e o bom senso, mas foi por muito pouco, dizia…Tempo de partir novamente. Pelo caminho, a presença portuguesa continua a fazer-se notar em todo o lado. Uma brutal maquinaria e tubagem abandonada indicia que uma peculiar obra existira naquele local. Segundo o nosso guia teria sido uma central de produção de energia eléctrica que aproveitaria o imenso caudal do rio Lucala. Obra implementada pelos portugueses, fornecia toda a região de Kalandula. Tinha sido destruída e roubada durante a guerra. Mais uma. Agora, os barulhentos geradores a gasóleo são a solução. Quando estão a carburar…Tempo de continuar para o local mais desejado. O local tantas vezes pensado. As míticas Quedas de água dos Duque de Bragança. Conhecidas agora como as Quedas de Kalandula. As segundas maiores de África. Galgando novas picadas, amortecedores sempre testados para lá do impossível, à medida que nos aproximávamos a minha ansiedade aumentava. Tinha esperado tanto por este momento. Agora ali tão perto.

O som chega primeiro. O som da água. A grande distância. Vai aumentado. O nosso entusiasmo acompanha-o. Paramos a carrinha, saltamos energicamente para fora. Ainda nada tínhamos visto e já tão inebriados. O primeiro olhar acontece. Inefável e mágico. Um milagre da natureza bem à nossa frente. A força de toda a África a implodir numa detonação de água em movimento. Os meus olhos agradecem. Nunca viram nada tão belo. Mais de trezentos metros de comprimento e cento e tal de altura davam aquele lugar uma dimensão à qual os sonhos não se atreveram a chegar. Uma amálgama dos sentidos a fundirem-se num só. Não é apenas o ver, o ouvir, o cheirar. É tudo junto. É sentir. O caudal multiplica-se e desdobra-se numa infinidade de caminhos e gradação de cores em que os azuis e os verdes imperam numa plasticidade absorvente. A harmonia daquele caos em que todos os elementos parecem fazer sentido é fascinante e comovedora. O arco íris ao fundo, ao que dizem sempre presente anuncia um tesouro por descobrir, mas que eu percebo de imediato que não é mais do que o milagre de estar ali!! Entusiasmamo-nos de tal forma que damos por nós a saltitar nas últimas pedras que nos separam do abismo. Não queremos saber. Estamos em êxtase. Queremos filmar e fotografar sem parar. Queremos ver tudo. Queremos tudo. Mas a vertigem manifesta-se e desperta-nos o bom senso. O arrepio das alturas é amplificado com nova história do nosso guia. No tempo da Guerra atiraram um homem lá abaixo. Para morrer. Bem lá para cima das pedras. Como um flash, uma visualização fulminante atravessou-me o cérebro e varreu-me a espinha de cima abaixo. Imaginei-me a cair dali, como dois ovos a cair do céu. Não iria sobrar nada, nem gema, nem casca, absolutamente nada. E atiraram um homem lá abaixo…?!! Os horrores da guerra. Enquanto me imaginava a esborrachar nas pedras afiadas, o António continuava… o homem de repente, aparece da espuma, bem lá em baixo do meio das rochas e desata a correr em direcção às montanhas da outra margem. Os guerrilheiros incrédulos começam a disparar com as suas Ak-47 aqui de cima. Trrtttaaaaa. Trattaaa. ( a kalashnikov do António voltava a cantar.. ) trattaaa, trttattaaa. Mas as balas desviavam-se e nem uma acertava. O homem continuava a correr, a correr com a sofreguidão de quem volta a nascer depois de uma morte anunciada. As balas sempre em arco sem cessar. Desviam-se, desviam-se, não param e nenhuma lhe acerta. Ninguém lhe acerta. De repente, interrompe a descrição, procura umas pedras e atira-as com vigor. É mesmo espantoso. Com a densidade de toda aquela água no ar as pedras fazem realmente uma curva inexequível. Resolvi experimentar e quando arremessei a minha, fiquei com aquela sensação que tinha em miúdo quando dava uns tirinhos com pressão de ar nas feiras populares. Não havia maneira de acertar, as espingardas estavam de tal forma manipuladas pelos donos da tenda, que o único jeito de levar para casa um espumante zurrapa era tentar não acertar!!! Atirar entra as fitas! Muitas vezes em desespero, atirava à garrafa, era o último tiro claro. Acabava mal. Às vezes em fuga..…Sorte a do homem. A espuma amorteceu-lhe a queda e a humidade desviou-lhe o corpinho das balas. Apareceu 7 anos depois segundo dizem. Tem história para contar a netos e bisnetos. O avô sempre treteiro e com a mesma história… Algum tempo ali em cima, captação de imagens em todos os ângulos possíveis e impossíveis, fotografias até à exaustão e eu e o João já só temos uma certeza na cabeça. Temos de ir lá a baixo filmar. Não hà volta a dar. Dê por onde der. O nosso guia percebeu logo uma atitude irreversível. Desceríamos com ou sem ele. Desceríamos nem que fossemos sozinhos. Decide vir connosco e conhecer também pela primeira vez o local onde o arco-íris termina. Em segundos descobre um velho que nos indica o caminho.

Que aventura. Que descida. Completamente a pique lá íamos descendo entre enormes obstáculos num trilho apertado. A floresta cerrada fazia-me pensar nos possíveis perigos por muitos falados. Nas aranhas gigantes e nas jibóias que de certeza espreitavam. Na serpente mamba negra algumas vezes por ali vista. A segunda mais venenosa do mundo. Mata em pouquíssimo tempo. Se sou ferrado não faço nem 10 metros para cima, pensava. Mais valeria continuar a descer até ao destino tão fantasiado. Vou brincando com o João sobre isto. Tem um pânico avassalador por cobras e não perco uma oportunidade para o picar. Antes eu que as ditas. Mas na realidade, num sítio tão inóspito como aquele, eu continuava era com receio da mosquitada. Imaginar um vírus a instalar-se no meu figadozinho, a reproduzir-se e alimentar-se ali prazenteiramente e quando lhe apetecesse!!! Que grande confusão me fazia. Mas estamos aonde!?? Pensava. Isto ainda não é a casa da Joana..!!! O João sabia bem disso e sempre que o atacava, contra-atacava. E lá puxava eu dos meus inúmeros sticks e sprays de repelente e carregava-me até à exaustão. Sempre que apanhava um miúdo ou graúdo a observar-me perplexo com o meu ritual, não resistia, abria bem a boca, fingia que mandava uma boas spraizadas bem lá para dentro da goela…!!! E dizia: - é para os mosquitos não me picarem na lingúa!! Nem queriam acreditar no que estavam a ver. Olhavam para mim como para um marciano cor de rosa em pijama. Para o que me havia de dar. Mas era mais forte do que eu. Íamos passando, por cima, por baixo, pelo meio de enormes troncos deitados, contorcendo-nos até ao impossível. Era o Yoga, o pilates e todo o exercício holístico concentrados naqueles instantes num limiar de esforço e já em grande felicidade pelo deleite esperado. O barulho da água a esmagar-se nas rochas vai aumentando. Estamos a aproximar-nos. Uns últimos obstáculos e os calhaus mais escorregadios que já vira encarregam-se de me mostrar isso mesmo. Uma torrente de partículas de água alagou-me em instantes enquanto descia os últimos metros. Entro e saio em nuvens de vapor, salto entre pedras rolantes que milagrosamente me aceitam e uma após outra vão sendo minhas confidentes e me anunciam o momento mais desejado. Um íman irresistível vai-me puxando. Mais e mais. A densidade da humidade a aumentar em progressão geométrica a cada pedra que nos acolhia. Completamente encharcados continuamos a avançar no meio da neblina, num torpor em crescendo que nos alicia para dentro colocando em risco todo o equipamento. Mas tinha mesmo de ser. E o grande momento acontece. Assim como por milagre. O milagre. À minha frente. A maior visão que alguma vez tivera. Que alguma vez terei. As deslumbrantes quedas de Kalandula vistas de baixo. O imenso transe estético. A sensação e a certeza que nada poderia ser tão grandioso, majestoso, inefável e arrepiante como o que os meus olhos agora reflectiam. A mãe natureza na sua infinita sumptuosidade. Queria eternizar aquele instante. Queria puxa-lo para mim, mantê-lo num longo abraço e fazê-lo meu para sempre.

 
2009-11-19
 
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